Diálogos de marketing no contexto atual – Parte 02

A segunda parte do bate-papo entre Léo Lourenço e Douglas Carias entra em pautas mais específicas da área de marketing. Nossos pontos de vista sobre como ficará o mercado estão expostos no diálogo abaixo, que dá continuidade à conversa anterior.


Léo: 

– Então, parceiro… Na minha humilde e crítica visão, não vai adiantar vender (publicitar) feito um louco, porque acho que não vai mais se vender dessa forma, pelo menos nos 6 a 12 meses pós-coronavírus. Acredito honestamente, que as pessoas vão investir com mais assertividade, com mais medo, com mais segurança, no mais necessário ou prioritário, como você sugere. Vão se perguntar cinco vezes se é necessário mesmo adquirir aquele produto/serviço. Precisamos lembrar que o Brasil já estava mergulhado numa crise econômica e financeira, que já vinha durando quase dois anos. Em 2020, o mercado até começou a demonstrar lampejos de que iria aquecer, mas no terceiro mês do ano, o mundo foi obrigado a ficar dentro de casa.

Doug: 

– Eu acho que talvez até haja um crescimento na publicidade, mas mais na área do que necessariamente de agências. Muitas delas tiveram que desligar colaboradores, reduzir quadro drasticamente, até diminuir a carga diária de trabalho pra otimizar o valor da remuneração e não fecharem de vez. De certo modo, isso representa uma constante não apenas nesse segmento, visto que aconteceu com boa parte do mercado, de não pensar o médio/longo prazos. Isso é uma lição importante que se fica desse momento. E como eu falava, acho que haverá a necessidade do papel do marketing de modo mais atuante, responsável e eficaz, tudo isso pra fazer a roda girar de novo. As empresas terão que fazer mais com menos, e isso significa investir em marketing com inteligência.

Léo:

– Pois é! Tem muito estoque parado, precisando girar. Teremos promoções, condições de pagamento, facilidades etc., mas o mercado será aquecido de forma diferente, porque as pessoas e as empresas precisarão mudar em alguns contextos. Alguns segmentos terão que se reinventar integralmente. Trazendo para o universo do marketing, podemos destacar que:

  • As agências terão que mudar o modus operandi;
  • Os marqueteiros terão que mudar o modo de planejar;
  • O vendedor/comercial vai ter que repensar suas estratégias de atração;
  • Os donos, CEOs e diretores terão que dar muito mais autonomia e autoridade, além de ouvir muito mais o marketing a partir de agora, porque são esses caras que bebem e beberão na fonte do mercado e dos clientes (de uma forma um pouco diferente, é bem verdade, mas precisarão estar na linha de frente).

Precisarão também ser muito mais objetivos e assertivos. O planejamento que antes era anual se resumirá a seis meses. E aí?

Doug: 

– Esse assunto que você traz é muito sério. Acho que não cabe fantasias, ilusões ou crenças subjetivas aqui. Entendo e muito o otimismo, mas aplicado a trabalho, a ações planejadas e pensadas. É necessário deixar, mais do que nunca, os homens e mulheres de marketing trabalharem. Não há espaço para egolatria, orgulho ferido ou saltos de fé não calculados. É fundamental pensar em cada etapa, cada projeto, cada objetivo e estratégia, passo a passo, na ponta do lápis, com a frieza essencial para lidar com foco na solução de problemas e tomada de decisões.

Léo:

– Nem precisa ser expert em economia para conseguir ter uma opinião mais fria do cenário que vem por aí, visão esta que, infelizmente, parece ser pessimista, mas não é. Vejo com objetividade: com tudo isso, ou as empresas buscam ofertar as necessidades ou prioridades reais de consumido ou devem quebrar.

Doug:

– E acho que, pra amarrar esse ponto, reforço: ainda não sabemos no que tudo isso vai dar, no tamanho real da crise, muito menos que já houve uma revolução no mundo. É muito cedo e estamos limitados de opções, por isso, dizer que houve tal mudança é apressado. Para entender melhor a dimensão de crises e reestruturações, podemos ter aprendizados olhando para momentos em que houve problemas econômicos de grande escala, como

  • a Grande Depressão de 1929, que nos mostrou o que acontece quando não se percebe a economia de modo integrado,
  • ou a Bolha Imobiliária de 2008 nos EUA, que desencadeou uma crise que mostrou que grandes mercados podem encontrar saturações e causar a quebra de organizações aparentemente seguras,
  • ou mesmo o pós Segunda Guerra Mundial, que fez os países devastados focarem na reconstrução de suas culturas e estruturas. 

Há aprendizados nesses fatos históricos, e creio ser importante e interessante também olharmos para trás, para outros momentos de crise vivenciados, para ajudar-nos a olhar para a frente.

Léo:

– Honestamente, não sei se isso que está acontecendo vai permanecer por muito tempo e, infelizmente, acho difícil o Brasil “revolucionar” ou aprender de modo efetivo. O mercado brasileiro estava precisando mesmo de um freio de arrumação, mas no Brasil muitas coisas acabam em pizza e, no geral, o povo daqui tem memória curta. Para muitos, “Carnaval é todo dia”. Pelo menos, nos próximos 12 meses, até os brasileiros/empresas que acreditam nesse oba-oba terão que ressignificar o que é consumir, vender e se relacionar, visando sobreviver economicamente.

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