Diálogos de marketing sobre o contexto atual – Final

Na última parte da conversa entre Léo Lourenço e Douglas Carias sobre este momento de pandemia, o assunto é: o que fazer? Quais os apontamentos importantes para o posicionamento das marcas nos dias atuais?

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Doug:
– É necessário eliminar o clima de oba-oba natural da nossa sociedade e levar a sério o presente e a construção do futuro, do chamado “novo normal” que vem por aí. Vejo que, aos poucos, os hábitos dos brasileiros parecem ir de encontro com as diretrizes que estão sendo dadas pelos órgãos governamentais em escala mundial. Diante desse cenário, como você acha que deve ser, no geral, o posicionamento das marcas?

Léo:
– Estão me perguntando muito, na lives que venho fazendo, se a comunicação e o marketing devem parar, em respeito ao momento. Eu respondo da seguinte forma: Se estão preocupados apenas com o seu caixa, SIM. Se quiserem fazer o Marketing 1.0, SIM. Se estiverem olhando apenas para elas mesmas, SIM.
Quer continuar vendendo? Venda com inteligência e humanização. O outro cara, do outro lado do balcão, está na mesma situação que você ou até pior. Por isso, é necessário que todos se respeitem.

Doug:
– É o que diz Kotler: “lucro é subproduto das coisas bem feitas”. Aprofundando essa frase, não devemos encará-la apenas na perspectiva financeira. O “bem feitas” que ele cita diz respeito a todos os processos anteriores ao processo de venda, que vão desde planejamento, compreensão do micro e macroambiente, benckmarking, estudo de mercado, gestão, definição de processos eficazes, diferenciais competitivos, posicionamento, atendimento em todos os pontos de contato entre a marca e as pessoas, qualidade da produção, da entrega, percepção de diferenciais… Para fazer dar certo, basta olhar para todos esses aspectos e aplicar ao momento atual. Entendendo o comportamento das pessoas diante do cenário, e priorizando isso, o relacionamento com o público será mais viável para as marcas. Na boa, as pessoas não estão exatamente preocupadas com marketing. Elas querem sobreviver e segurar as pontas até isso tudo passar.

Léo:
– Acho que esse ponto que você traz sobre as pessoas não estarem tão preocupadas com marketing tem três pontos:

a) a falta de planejamento de todos (claro, ninguém imaginava que passaríamos por algo assim) fez com que não houvesse solidez de caixa, ou mesmo no próprio relacionamento com as pessoas. Num contexto desse, as marcas que não fizeram ou não se preocuparam com essas coisas passarão por maus bocados;
b) na prática, é importante pensar na proximidade com as pessoas que já são clientes ou já têm uma relação com a marca. Por isso, as empresas devem otimizar esses contatos com aqueles que tinham sua marca como um provedor de serviços e produtos importantes para eles. E, no mesmo grau de importância, devem criar ideias e soluções para também aqueles que ainda não são seus clientes.
c) Pensando em médio prazo, as marcas também precisam pensar em como seu produto/serviço vai se adaptar após coronavírus e como o seu produto/serviço vai continuar fazendo sentido na vida das pessoas e de outras empresas.

Doug:
– É, parceiro, é isso mesmo. O conceito de humanização, que já tem sido comum em nosso meio, se faz necessário, relevante e, principalmente, natural. Apesar do instinto de sobrevivência das pessoas, há um apelo para que se olhe para as necessidades, as dores, os pesares, as dificuldades de todos, visando manter o ecossistema em funcionamento. A natureza funciona assim: um leão mata uma zebra na frente de sua família para sobreviver, mas instante depois está bebendo água com elas na beira da mesma lagoa. Há momentos em que a competição é inevitável, mas em outros, como agora, a cooperação entre todos os atores da sociedade dita o futuro de toda uma forma de vida. Dependendo do tamanho da crise que virá, a falta do pensamento em rede pode trazer sequelas irreparáveis na economia local, regional, nacional, global.

Léo:
– Por isso que eu digo: quer continuar fazendo marketing, independente do momento? Pense mais no outro, que esse outro também vai te enxergar e vai pensar mais na sua marca. Acredito que será uma troca de sentimentos e humanização a partir de agora, ou pelo menos por algum tempo. Não é mais apenas sobre a troca de produto por dinheiro. ESSE É UM DOS GRANDES APRENDIZADOS QUE A QUARENTENA ESTÁ ENSINANDO EM RELAÇÃO AO MERCADO.

Doug:
– Talvez esse bate-papo esteja indo para uma visão que alguns chamem de negativa. E eu não posso discordar de quem pense assim do que estamos dizendo. Acho que isso tudo serve como um alerta, porque não somos adivinhos. Entendo que marketing não é arte, não é subjetivo, não é abstrato. E me parece que só se dão conta disso quando o caixa está no vermelho, que é necessário desligar profissionais da equipe, que não tem muita grana pra investir. Marketing tem um viés concreto, ligado a números, estatísticas, decisões, resultados e processos. Sem o pragmatismo necessário para a atividade de marketing, muito provavelmente só haverá lamentos quando as contas não fecharem.

Léo:
– Parceiro, se virem nossa visão como “pessimista”, meu conselho é que se preparem para o novo mundo que está na sua porta, pois de pessimista acredito que não tem nada. Mas reconheço: pode ser que nada que a gente disse aconteça, ou pode ser que seja ainda pior do que achamos. Mas acho que trouxemos uma visão da possível realidade, com base nessa enxurrada de conteúdos que estão sendo derramados na TV e, principalmente, na internet.
Segundo o publicitário mais conhecido do Brasil, Washington Olivetto, em sua entrevista ao Estadão, a crise do novo coronavírus vai acarretar uma reinvenção da publicidade em todo o mundo. “É um cenário difícil para todos, mas especialmente difícil no Brasil, onde a situação é um pouco pior por causa da defasagem em relação ao resto do mundo”.

Doug:
– Tudo no Brasil parece mais complicado, né? Aqui a galera é muito boa em memes, em críticas rasas e em demorar para levar as coisas a sério. Na publicidade, definitivamente, o glamour e a desassociação com a realidade para se imprimir um mundo de fantasia, distante das pessoas, ainda é predominante nos grandes veículos de comunicação. O marketing de interrupção ainda é regra tanto nas mídias tradicionais quanto online (por mais que se diga o contrário, como não perceber que as estratégias de inbound marketing nos “chantageiam”, no sentido de que eu só acesso uma informação através de condições como fornecer meus contatos? Será que estão me “dando” conteúdo mesmo?).

Não podemos negar que nosso país é criativo e se destaca no mundo por isso. Por que não usarmos essa capacidade para construir com propriedade essa realidade que está se configurando?

Léo:
– No fim, a gente não tem muito o que fazer além de contribuir como pudermos com as pessoas. Daqui a um tempo, quando tudo isso passar, que possamos dizer uns aos outros: Feliz Ano Novo (ou melhor, feliz vida nova)!

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